Revista digital Oil & Gas Brasil Nº 77

MATÉRIA DE CAPA

novas. Essa característica representa uma oportunidade para ampliar a par- ticipação da indústria nacional de bens e serviços de maior valor agregado ou o Brasil ainda depende, em segmentos estratégicos, de tecnologias e fornecedo- res externos? Telmo Ghiorzi – A cadeia produtiva brasilei- ra de petróleo é, entre outras características, parte de rede global, heterogênea e de alta competência técnica. Muitas novas tecno- logias podem estar disponíveis em outras regiões do globo até que sejam requeridas no Brasil. O contrário também ocorre: temos tecnologias que podem ser mobilizadas por outros países. Há segmentos em que somos referência de tecnologia e capacidade fabril, e outros segmentos em que precisamos com mais frequência recorrer a importações. Mas a característica chave aqui é que temos o conhecimento técnico, cristalizado na Pe- trobras, em outras petroleiras e na cadeia produtiva, suficiente para definir, especificar, selecionar, desenvolver, operar e manter quaisquer tecnologias necessárias para ex- ploração e produção no ambiente offshore. A ABESPetro defende o fortalecimento da cadeia produtiva brasileira como política de Estado. Considerando a retomada da bacia de Campos, quais medidas regula- tórias ou de política industrial seriam mais urgentes para transformar esse aumento de atividade em ganhos permanentes para a indústria nacional, e não apenas em um ciclo temporário de encomendas?

difíceis. Porém, podem tornar-se impossíveis em cenários de incerteza. Por isso são pos- tergadas. Se e quando a maior capacidade for finalmente requerida, o país pode enfren- tar atrasos em projetos e, por conseguinte, na produção de petróleo. Contudo, o desen- volvimento tecnológico é sempre imperati- vo e, ao contrário da capacidade produtiva, não deve sofrer impactos relevantes. A Petrobras voltou a adquirir áreas exploratórias e intensificou a perfuração de poços na bacia de Campos, mas o Pla- no de Negócios ainda prevê um número relativamente reduzido de novos poços. A cadeia de fornecedores está preparada para atender uma eventual aceleração desse ritmo ou há gargalos, como dis- ponibilidade de equipamentos, mão de obra especializada e financiamento, que precisam ser enfrentados? Telmo Ghiorzi – Há gargalos. O principal é mão de obra especializada. Mas a cadeia produtiva brasileira tem um considerável acúmulo de capacidades para rapidamente mobilizar recursos produtivos e superar gar- galos. Na verdade, a cadeia produtiva prefere enfrentar o desafio da falta temporária de capacidade produtiva a enfrentar o desafio da falta de demanda. A falta temporária de capacidade produtiva é estimuladora e cau- sa entusiasmo. A falta de demanda é desa- lentadora. A revitalização de campos maduros cos- tuma exigir soluções tecnológicas mais complexas do que projetos em áreas

Telmo Ghiorzi – A política industrial moder- na, por definição, é baseada nos princípios de sofisticação tecnológica, exportações e concorrência acirrada. Ao contrário da visão superada de reserva de mercado e do foco apenas em substituição de importações e em demandas domésticas. Então, os instru- mentos legislativos, regulatórios, tributários, aduaneiros, tecnológicos, estratégias de governos etc. precisam ser constantemen- te e permanentemente aprimorados para alinhamento entre si e com estes princípios.

Neste contexto, permanentemente significa com duração de décadas, não de 4 anos, e estabilidade, não mudanças radicais de rumo. Em termos práticos, é necessário que, em vez de termos decretos ou regulações temporários, ou outros instrumentos apenas de governo, tenhamos leis ou outros instru- mentos que materializem políticas de Esta- do. Um desafio que o Brasil, incluindo o setor de petróleo, não conseguiu superar.

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