Writing Workshop at Lisbon Congress

era o que a interessava. Deixar acontecer e viver tudo o que surgisse. Os novos cheiros, sabores, vistas enfim, as novas sensações que brotariam neste espaço contiguo ao anterior, porem novo. O apartamento anterior foi o primeiro nesta nova cidade e agora finalmente o próximo fora alugado por mais tempo. As precauções legais, os contratos haviam sido organizados nos meses iniciais. Agora a chance de estender sua estada era a chance de novas aquisições. Sandra Brito Fornelos, Sociedade Portuguesa de Psicanálise No dia 1º de Abril, uma senhora idosa e baixa, mudou-se para o apartamento ao lado. Estávamos muito curiosos para conhecer a nossa nova vizinha. Este sempre foi um bairro muito tranquilo, com muita vida familiar e rodeado de espaços verdes e alguns canteiros floridos que deixavam no ar um cheiro adocicado, durante a Primavera. Era muito bom viver aqui. Recordo-me, vezes sem conta, das longas noites de trabalho em que se percebia que o dia ia clarear quando começávamos a ouvir o intenso chilrear dos pássaros, a anunciar o início de um novo dia. Nos últimos anos víamos grandes mudanças a acontecer: muitos dos moradores mais antigos tinham saído, e sido substituídos por grupos de jovens estrangeiros que mudavam a cada semana. Passou a ser difícil conhecer os vizinhos ou estabelecer com eles algum tipo de relação, tendo em conta a curta permanência. A tranquilidade e quietude habitual era frequentemente alterada, e já não havia tanto cuidado com os canteiros, as flores, as ruas, os espaços. Numa cidade grande, que se torna por vezes hostil, este nosso pequeno recanto era um refúgio que queríamos manter intacto, fomentando as relações de proximidade e cuidando uns dos outros, numa reciprocidade empática, calorosa e afectiva. A ideia de voltar a ter o apartamento do lado ocupado, deixava-nos na expectativa do que daí viria e, cheios de curiosidade tocámos à porta para nos apresentarmos e levarmos um pequeno presente de boas vindas, umas deliciosas bolachinhas caseiras. Marta Russo, Sociedade Portuguesa de Psicanálise No dia 1° de abril, uma senhora idosa e baixa, mudou-se para o apartamento ao lado. Não podia deixar de pensar na parede com os militares, que tinha visto nesse mesmo dia de madrugada. Como era estranho, que o meu pensamento voltasse a essa parede de azulejos. Mesmo em Lisboa, isso não deixava de ser incomum na minha mente. Fechei as cortinas, já que o Sol ia alto. O enjoo não me largava o estômago. Como é que podia ser coincidência, que o filho da senhora, dentro da sua farda bem engomada, a tivesse vindo deixar, juntamente com as suas coisinhas, logo no dia a seguir a eu me ter deparado com aquela imagem.

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