Writing Workshop at Lisbon Congress

Inês Ataíde Gomes, Sociedade Portuguesa de Psicanálise No dia primeiro de Abril um senhora idosa e baixa mudou-se para o apartamento ao lado. Vinha com as suas malas, atarefada, e atras dela um gato malhado, que se enrodilhava no seus pés. Juntos numa dança sincronizada, em que os passos de um não atrapalhavam os passos do outro. Fora esse curioso pormenor nada a distinguia dos demais moradores cinzentos do prédio cinzento. Ah! Mas essa sincronia era quase perfeita. Uma cumplicidade que fazia adivinhar muito carinho mas também muita solidão. Maria. Sim era esse o seu nome, maria como tantas outras Marias. Maria trazia consigo um poço de histórias perdidas. Com traços de tristeza e de amargas perdas, lutos – muitos, uns doces outros violentos. Ser Maria era ser mulher e era ser mulher portuguesa, também poderia ser mulher brasileira talvez... O gato mia fazendo-se notar. “Calma Nautilus” disse Maria, enquanto procurava nos seus haveres as tijelas do bicho. Nautilus foi a forma que encontrou de transformar o horror em amor. Há dez anos o bacalhoeiro Nautilus naufragou nos mares da Noruega, com ele foi-se o seu José, amor de uma vida, pai dos filhos que não teve, companheiro as viagens que não fez, parceiro das memórias que não construiu. Uma andorinha poisa no beiral. Maria e Nautilus olham ambos para a pequena ave que indiferente a eles penteia as suas penas negras sob o sol primaveril daquele primeiro dia de Abril. Encantam-se, cada um à sua maneira, suspensos naquele momento em que a história não se faz presente, e um pássaro negro poisou na sua janela. Elena Beatriz Tomasel, Membro efetivo da SPPA (Sociedade Psicanalítica de Porto Alegre) No dia primeiro de abril uma senhora idosa e baixa mudou-se para o apartamento ao lado e no início ela estava animada, apesar de todas as restrições de seu filho que, como sempre, se colocava contra inovações. Mara se sentiu além de feliz, cheia de uma nova energia. Percebia-se vitalizada, pois além de um espaço físico novo, ela se sentia entusiasmada com a possibilidade inaugural: uma nova fase. Planos? A esta fase da vida já aprendera que planos não eram mais necessários. O importante era apenas viver. E

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