Writing Workshop at Lisbon Congress

- Lopes! Sou empregado na sapataria e moro aqui há mais de trinta anos. A minha mulher faleceu há dois anos e vivo com a minha filha e o meu genro. Se precisar de

alguma coisa estou ao dispor. - Muito obrigado, Sr. Lopes!

Durante a mesma noite, ouviu-se uma caixa a arrastar às três da manhã. Ainda sem pregar olho, oiço a porta do prédio a bater. Espreito para o Hall de entrada e vejo três homens grandes a carregar uma caixa grande do apartamento da senhora do lado. E penso: mas que raio? O que esta mulher anda a fazer? Terá sido um assalto? Ou será que levam a velha na caixa! Não, não pode ser! Deve ser da insónia! Carolina Bacchi, Psychoanalytic Institute of Northern California (PINC) RESSACA No dia 1 de abril, uma senhora idosa e baixa mudou-se para o apartamento ao lado. Ela tinha dificuldades de subir os andares, devagar e parando a cada quatro degraus, ela recuperava o fôlego e permanecia concentrada na tarefa de alcançar o terceiro piso. O apartamento era pequeno e iluminado, de frente para o mar. A janela da sala era ampla, e quando aberta inundava o espaço com uma brisa leve e agradável, que refrescava o calor e mareava o cômodo. Luiza tinha 75 anos e sempre sonhou em morar no litoral. Adiou durante a vida toda, a criar filhos e acomodar desejos não vividos. O apartamento estava à venda já fazia algum tempo. Luiza visitou o prédio no verão anterior, entrou no apartamento e permaneceu calada olhando o movimento das ondas. O corretor interrompeu seu silêncio após uns 10 minutos de espera. A senhora gostou? Meu marido surfava quando jovem, tínhamos planos de morar na praia, mas acabamos engolidos no dia a dia da cidade grande. Ele faleceu faz dois meses. Sinto muito, D. Luiza. Gostei, sim. Ela saiu do prédio e atravessou a rua para andar pela praia. A areia quente tocava de leve a sua sandália, enquanto lembrava de Antonio molhado, de pé na sua prancha. Lu, um dia mudamos para o litoral. Ele surfando, ela escrevendo. Esse dia, não chegou para Antonio, a vida que tiveram não teve espaço para sonhos da juventude. No dia seguinte, Luiza reuniu os filhos num almoço improvisado. Mudo para a praia, já achei o apartamento. Mãe, não podemos deixar a senhora ficar tão longe, ainda mais agora. Já está decidido, fecho o contrato amanhã. Ela não tinha tempo para esperas e preocupações. Nem para conversas longas e decisões arrastadas.

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