Quando ele estava prestes a se dirigir aos convidados reunidos, perdeu a voz.
Alexandra Coimbra, Sociedade Portuguesa de Psicanálise Quando ele estava prestes a se dirigir aos convidados reunidos, perdeu a voz. E perdeu- se nos seus próprios pensamentos. Teve muitas dúvidas sobre fazer aquela celebração. Reformar-se é uma data para comemorar? Pelos vistos, achara que sim, ou então, deixara-se convencer pela mulher, pelos filhos e pelos colegas do escritório. Agora, perante todos, duvidava do discurso que tinha à sua frente, numa folha de papel. Duvidava se era aquilo que queria dizer, da veracidade de tudo o que tinha escrito. No entanto, ao escrevê-lo parecera-lhe bem. Falava da sua família, agradecia aos pais, tinha uma dedicatória especial para a mulher, uma palavra para cada filho, um agradecimento aos colegas, um encerramento do que fora a sua vida até aquele momento e palavras Disfarçou, achou que todos iam tomar o seu silêncio como comoção. E, na realidade, estava comovido, mas, de repente, todos os pensamentos dispersos dos últimos tempos, as questões, as dúvidas, juntavam-se e faziam sentido. Percebeu que já conseguiria falar. Poisou as folhas do discurso que tanto tempo lhe levara a escrever na mesa ao lado. Aclarou a voz e começou: – Quero agradecer a todos por estarem presentes… — e continuou, os agradecimentos, a gratidão por algumas das pessoas eram genuínos. Mas acrescentou: — Mais importante do que a etapa que hoje termina, é aquela que vou começar e é essa que gostaria de partilhar convosco. No final, foram os convidados que ficaram em silêncio até começarem a soar aplausos. Tinha conseguido surpreendê-los. Sorriu, de comoção e de satisfação. vãs sobre como seria a partir daí. Era isso que lhe importava dizer? Alexandre Castro e Silva, Sociedade Portuguesa de Psicanálise Quando ele estava prestes a se dirigir aos convidados reunidos perdeu a voz… Toda a gente olhava perplexa para o homem, ele tentava falar, mas só os lábios mexiam porque não saía nada. Uma mulher correu para ao pé dele e deu-lhe uma palmada nas costas e ouviu-se: Bo…, Bom…, Bomba! Há uma Bomba no Prédio! Todos os convidados correram para as saídas de emergência, atropelavam-se uns aos outros. Um homem idoso tropeça e cai…, incapaz de se mover! Um jovem pisa-o e segue a correr e, uma menina, não tinha mais de cinco anos, pára em frente dele, dá-lhe a mão e diz:
- Vá! Levante-se! Venha comigo - Obrigado! Não sei se sou capaz.
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