Sandra Brito Fornelos, Sociedade Portuguesa de Psicanálise Quando ele estava prestes a se dirigir aos convidados reunidos, perdeu a voz. A ansiedade tinha tomado conta, de forma categórica. Era um verdadeiro cliché: o coração batia desenfreadamente, sentia o estômago a revolver-se e a aflição era tanta que pensava que iria morrer a qualquer momento. Poder-se-ia fazer “check” em todos os itens dos manuais técnicos para a descrição de crises de ansiedade. Agora questionava-se como tinha chegado aquele momento, porque decidira reunir aquelas pessoas e convidá-las para aquele evento em particular, se não se sentia capaz de se dirigir a eles para fazer um anúncio tão importante, que teria um impacto tão directo na vida de todos eles. Pensou em todas as formas possíveis de fuga e, de forma acelerada, surgiram no seu pensamento várias alternativas mais ou menos tolas, de contornar aquele grupo de pessoas, concentradas numa pequena multidão, bem vestida e expectante. Sentia-se encurralado e a falha da voz, somatização abrupta e imprevista, foi a forma de expressão mais intensa e disruptiva de que o seu corpo foi capaz. Ao olhá-los a todos, sentados naquelas mesas redondas, num jantar de gala, há muito aguardado, que representava o ponto alto de um ano de trabalho intenso, pensava: “e agora? O que é que eu faço? Como me vou safar disto?”. Nesse momento, surgiu ao seu lado o chefe, homem ponderado e benevolente, uma figura paternal, que lhe pousou a mão no ombro e disse “não te preocupes, eu ajudo-te”. E tomou a palavra, fazendo um discurso breve e incisivo, o que permitiu que a sua voz normalizasse num instante. Marta Russo, Sociedade Portuguesa de Psicanálise Quando ele estava prestes a se dirigir aos convidados reunidos, perdeu a voz. Mas não foi uma ausência que se percecionasse na audiência. Foi uma perda da sua voz interna. Acho que até se poderia dizer, matéria inata, que se expressou finalmente: não voltarás a falar livremente. Gabriel ficou em pânico. Suava profusamente, quase ao ponto de podermos colocar peixinhos no seu suor e os mesmos sobreviveriam! As pernas tremerem, o coração descompassou-se e, abrindo a boca, saiu-lhe: “estou muito feliz por estar aqui hoje, a testemunhar o casamento destes meus grandes amigos, Joaquim e Lili! Desejo que este amor dure para sempre, e que eu possa testemunhar a vossa felicidade, sempre ao vosso lado!” Que mentira, Gabriel! Lili foi sempre desejada por ele, sonhou com este casamento um milhão de vezes, mas era ele o noivo. Gabriel estava agora encapsulado na prisão do ciúme. Quando a força lhe voltou às pernas, conseguiu imaginar o seu futuro amoroso: solitário, amargurado, perdido para
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