Writing Workshop at Lisbon Congress

But there were other things to deal with. Above all, I had to deal with my sadness, my emptiness. I stayed there, unbathed, with vague thoughts, endless hours. I think there was a book like that: Endless Hours. Or was it Damned Hours? Anyway, I never read it. There were many things I didn't do and now I really couldn't do. I just stayed there. When the sun got weaker, it was easier. I think I started to blend in with the environment. I didn't bother to turn on the light. I just stayed. Maybe I ate, I don't know. On the day I felt better, I was able to live little by little, a bit at a time, but I ended up feeling that I almost missed the sadness. Almost? I missed it. Sadness kept me company, and my fear was to be left with emptiness. I'm still learning to have something inside me. If it's nothing, let it be sadness. O dia começou com uma chuva pesada. Eu não quis falar. A minha mãe começou novamente com aquela conversa chata de que eu estou na idade do armário e que sou insuportável. Já não a posso ouvir mais. Saí de casa sem chapéu de chuva, de ténis e sem casaco. Cheguei à escola encharcada. Não me importei. Ou talvez sim. Continuei sem falar. Nem bom dia, nem nada. Não quero falar, não posso falar, talvez não saiba como falar. Fico sempre na última fila de carteiras e sei que me acham estranha e esquisita. Mas eu vou continuar calada. O professor de Geografia pergunta em que hemisfério estamos: "Bia, em que hemisfério estamos?" Eu estou no hemisfério do silêncio, da não-palavra, portanto, não vais levar resposta minha. Fico calada. Passo na entrada da escola, há lá trabalhos expostos, sobre handicaps das pessoas: deficiências motoras, doenças congénitas, alterações dos sentidos e vejo lá uma coisa. Sabiam que quem não fala, é porque não ouve? Os surdos não falam, porque nunca ouviram falar. Estarei eu surda também? Mas eu ouvi a minha mãe hoje de manhã. E ouvi a chuva pesada e o professor de Geografia. Eu acho que eu quero é ouvir outra coisas, para poder falar outras coisas. "Bia, gosto das tuas calças". "Obrigada" - respondi à Ana. A Ana era estranha e esquisita. Não falava. Falámos as duas.

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