Sua atenção foi atraída para um pedaço de papel sobre a mesa.
Alexandra Coimbra, Sociedade Portuguesa de Psicanálise Sua atenção foi atraída para um pedaço de papel sobre a mesa. Agarrou no papel, era a lista de compras, uma coisa banal, fruta, pão, leite … As compras que a sua mãe já não faria. Era difícil e, ao mesmo tempo reconfortante, estar ali em casa de sua mãe. Podia vê-la a entrar a qualquer momento e a retomar a vida onde esta tinha sido interrompida. A casa estava em ordem, limpa, as flores nas jarras ainda não tinham murchado completamente. Mas a mãe não ia voltar. Há três dias atrás recebera um telefonema de um número desconhecido e atendera: – É a filha de …? - perguntaram. – A angústia invadiu-a imediatamente. Soube que, qualquer que fosse a notícia, não seria boa. – A sua mãe deu entrada no Hospital. Foi encontrada inconsciente na rua. Está em observação. Não sabe como chegou ao Hospital, sabia que seria grave, se não seria a sua mãe que lhe estaria a telefonar, e não alguém do Hospital …. – Se eu conseguir contar até dez antes do semáforo abrir, vai correr tudo bem. – pensava, enquanto conduzia. Sabia que era absurdo, mas não conseguia deixar de ser invadida por pensamentos mágicos… – e se… e se… a minha mãe vai ficar bem. Chegou à Urgência, identificou-se. Pediram-lhe para esperar pelo médico… esperou o que lhe pareceu uma eternidade. Angústia, medo, desamparo, esperança, memórias, um turbilhão de emoções… não conseguia estar quieta. Chega o médico, que lhe diz uma série de coisas técnicas que lhe parecem incompreensíveis. Só ouve o final: – É uma questão de tempo, pode ficar junto da sua mãe. Despeça-se. Despeça-se! Como se faz isso? Sente que o fez, não sabe se muito bem, como sabemos se nos despedimos bem?! E agora, já depois do velório e do funeral, ali estava, em casa da sua mãe, onde ela estava ainda tão presente. Presente na ausência. Alexandre Castro e Silva, Sociedade Portuguesa de Psicanálise A atenção dela foi atraída para um pedaço de papel sobre a escrivaninha... Júlia abriu a folha e leu: Desculpa mas vou-me embora. Não tive coragem de to dizer, mas não tenho mais razões para viver. Desde que fiquei doente que não suporto ver a tristeza nos teus olhos, sei que o meu fim está próximo, meses, semanas… A nossa vida foi perfeita, o nosso amor, os nossos filhos! Fui um sortudo, mas não quero sofrer mais. Estou a desaparecer, o meu
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