Writing Workshop at Lisbon Congress

corpo é metade do que era, desvaneço, apago-me. Mas o que mais me custa é ter visto a alegria a sair porta fora da nossa casa. A Teresa e o Manuel andam cabisbaixos, e a tua cara …, a tua cara Júlia! Carrega uma tonelada de angústia! Vou surfar, vou à Praia do Norte apanhar a última onda. De lá não saio, quando me quiserem visitar vão lá ver- me. Lembrem-me com o sorriso na cara com que costumava sair da água depois de cada surfada. Ligado às ondas, ao mar, a ti meu amor! À nossa família! Fui hoje porque amanhã posso já não ter forças. Desculpa mas teve de ser assim, senão sei que me ias impedir. Levo-te a ti e aos nossos filhos nesta última dança! Com amor, Miguel Pousou o papel, as lágrimas caíam sem parar. Acalmou-se sentada no sofá, até que Carolina Bacchi, Psychoanalytic Institute of Northern California (PINC) A atenção dela foi atraída para um pedaço de papel sobre a escrivaninha. Sem linhas, em branco. Ela não lembrava de ter colocado ali. Talvez na noite anterior, quando abriu a última caixa da mudança, e achou uma coleção de papéis coloridos que tinha sobrado da festa da neta. No final da pilha, tinha um pedaço de papel amarelo, cortado ao meio, um projeto não começado ou uma sobra esquecida. A festa era para fazer cartões decorados, pintados à mão. O papel amarelo e uma promessa. Sentou-se na escrivaninha que ela tinha colocado em frente à janela da sala. O mar ao longe repetia ondas. A folha, ainda vazia, suas mãos entrelaçam a caneta azul, e as palavras não vinham. Olhou em torno. O apartamento ja parecia seu. No canto da escrivaninha, colocou sua orchídea, sem flores. Notou a folhinha verde, pequena, que estava a nascer. Acariciou de leve a planta, dividindo com ela esse momento de incerteza. Voltou-se para o amarelo da folha, escreveu: Ontem, mudei-me para a praia. entraram os filhos no escritório. - O Papá? – perguntou a Teresa De sorriso triste respondeu – O papá voltou ao mar … Inês Ataíde Gomes, Sociedade Portuguesa de Psicanálise A atenção dela foi atraída para um pedaço de papel sobre a escrevaninha. Era um papel de um amarelo forte parecia da cor com que ela pintava o sol nos seus desenhos de menina. Sentou-se. E sem pensar muito os seus dedos começaram a dobrar o papel.

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