Disseste? E eu? Disse?
Elena Beatriz Tomasel, Membro efetivo da SPPA (Sociedade Psicanalítica de Porto Alegre) Os expectadores vieram correndo, ficaram congelados em um lugar e trocaram olhares perplexos . Afinal o que estava acontecendo? E, por que? Todo o trabalho e o tempo que levaram para chegar até ali e, agora, de repente... congelamento! Como assim, perguntou Ana para sua amiga Flavia. O que é isto? Nós expectantes por um espetáculo que era para ser inesquecível e agora isto! O que eles estão pensando? Está certo que este grupo tem fama de ser irreverente, audacioso, mas interromper a apresentação deste jeito bruto e inconsequente. E agora? Será que substituirão o show? Não sei, respondeu Ana, além de surpresa, agora aflita. E foi então que um ilustre desconhecido pegou o microfone e tentou acalmar os ouvintes. Tudo aquilo levou um tempo. Acalmada a agitação o ilustríssimo desconhecido pediu desculpas e desenvolveu uma longa explanação. Aos poucos a plateia acalmava-se, alguns recolhiam seus pertences e preparavam-se para se retirarem do estádio quando um alarme começou a soar. O quarteto retumbante com seus diferentes instrumentos invadiu outra vez o palco e ela, a exuberante Tina, com suas belas coxas entrou radiante enchendo o ar com sua rouca, bela e intensa voz: Hi everyone I’m here for you! Sandra Brito Fornelos, Sociedade Portuguesa de Psicanálise A princípio ela pensou que fosse tudo um mal-entendido, enquanto olhava atónita, à sua volta, tentando entender como tinham chegado até aquele momento embaraçoso e pleno de significados ocultos. À medida que tentava avaliar a situação de forma cuidadosa, os pensamentos corriam a mil, numa aceleração desenfreada, atropelando- se uns aos outros. Apesar da sua idade madura, continuava a pautar-se por uma ingenuidade e por sólidos valores morais que a colocavam num lugar de perplexidade face a toda esta situação. O absurdo era muito perturbador e sentia-se meio perdida, como se o seu código de conduta tivesse caducado e já não fosse possível ler a realidade com as suas lentes habituais. Estaria ele a ser honesto quando dizia que queria ir embora? Havia mesmo terminado esta ligação de anos de cumplicidade, amor, paixão? A constituição de uma família e de um projecto de vida em comum já não seriam suficientes para os manter juntos? Sempre pensou que iriam envelhecer juntos, rodeados de filhos e netos, no meio de um doce reboliço de uma grande família, para a qual ambos viviam desde sempre. Quando foi que as coisas começaram a correr mal? E como foi que evoluíram sem que desse por isso? Parecia quase uma realidade distópica, em que nada parece fazer sentido, a lógica dois dias se altera e tudo fica a saber a fel. Não tinha um plano B. Não sabia o que fazer com a sua vida fora do plano familiar e dois
80
Made with FlippingBook Annual report maker