interesses comuns. Passou os últimos 30 anos da sua vida a cuidar dos outros e dos seus interesses, e esqueceu-se de cuidar de si. Já não sabia quem era sem ser ao serviço de um bem maior. A ideia de que se tinha esquecido de si também lhe parecia muito estranha. E triste. O confronto com a solidão e com a necessidade de se reinventar, a partir do abandono a que foi votada, invadiu-a de súbito, deixando-a sem ar. Nunca tinha pensado na possibilidade de haver imenso silêncio na sua vida e isso parecia-lhe muito inquietante. Esta reviravolta do destino, que lhe tinha sido imposta de forma tão abrupta e surpreendente, podia afinal ser uma janela para novas conquistas. Haveria espaço para se reerguer e delinear um plano. Talvez ainda fosse a tempo de retomar tudo o que foi deixado para trás, de voltar a ter prazer em pequenas coisas e de se reencontrar consigo própria e com os seus gostos e preferências. Talvez afinal o fim de uma longa relação conjugal possa ser o início de uma profícua época de reencontro. É interessante as voltas que a vida dá, e a forma como as adversidades fortalecem e iluminam. Quem diria que uma ruptura amorosa podia ser tão engrandecedora?
Marta Russo, Sociedade Portuguesa de Psicanálise A princípio eu achei que tudo fosse um mal-entendido.
Rapidamente me dei conta de que não. As coisas não estavam favoráveis para o meu lado. Eu estava ainda dentro da tenda, quando três homens entraram de rompante e falaram uma língua que eu não conhecia. Acossada pelo medo e pelo preconceito, tentei manter a calma e dizer para mim mesma que eles quereriam outra pessoa, que não era eu a visada. Mas quando fui levada à força, tudo ruiu dentro de mim. Era o pânico do desconhecido, do medo pela minha integridade física, talvez até pela minha vida. Fui levada para uma aldeia, um sítio escuro e com casas rudimentares. A língua continuava a soar estranha para mim. Não entendi nada. O que queriam de mim e para onde me levavam. Quando vi mulheres, confesso à fiquei mais calma. Talvez seja mesmo só um mal-entendido. Deram-me fruta e roupa demasiado vistosa para a simplicidade da aldeia e das casas. Aí comecei a pensar que afinal me tratavam bem. O medo começou a dar lugar ao espanto, mas o desconhecido permaneceu. Não entendia nada do que se passava. Fui levada para uma cerimónia e tratada como uma... Desperto súbita e violentamente. Volta o desconhecido, o confuso, que se passa? Mais uma manhã, o confronto com a realidade. Tenho um dia pela frente, o trabalho espera- me, o desejo de ser tratada de uma rainha fica lá atrás do pensamento. O raiar do dia retira-me o sonho. Até logo...
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