Revista digital Oil & Gas Brasil Nº 75

ARTIGO II

P-35 e o descomissionamento como eixo de economia circular: da engenharia offshore à reindustrialização da cadeia

E é nesse ponto que há um salto de relevância industrial. Os estaleiros deixam de ser apenas estruturas de apoio à cons- trução e passam a atuar como polos de transformação de ativos descomissionados. Recebem FPSOs, módulos, risers, sistemas de ancoragem e equipamentos, executan- do corte, segregação, descontaminação e classificação. A partir daí, materiais retornam ao ciclo produtivo como insumos industriais. Esse processo cria oportunidades concretas. Ampliação de capacidade instalada, surgi- mento de novas empresas especializadas, atração de fornecedores, reativação de áreas ociosas e migração de CNPJs para regiões com infraestrutura portuária preparada. A economia circular se materializa na forma de emprego, renda e desenvolvimento regional. Na disposição, a cadeia se expande para múltiplas camadas. Empresas de segunda, terceira e quarta camadas passam a operar com soluções específicas para reciclagem, transporte, processamento e reintegração de materiais. Cada camada desempenha papel estratégico, desde grandes contratistas até prestadores altamente especializados.

O Programa de Descomissionamento de Instalações (PDI) organiza tecnicamente esse ciclo ao consolidar inventário, alternativas, riscos e destinação dos ativos . É nele que se define, na prática, o grau de aderência à economia circular. Cada decisão tomada no PDI influencia diretamente o que será reaproveitado, reciclado, tratado ou descartado.

Sob a lógica dos 5Ds, a economia circular se manifesta de forma progressiva e integrada.

POR MAURO DESTRI, CEO DA DESTRI ENERGY | CONSULTOR ESPECIALISTA EM ÓLEO, GÁS E ENERGIA

Na desativação, o flushing de linhas, a limpe- za com controle de TOG, a despressurização e a inertização já configuram um processo de separação técnica de fluxos. Fluídos são tratados, contaminantes são segregados e equipamentos começam a ser preparados para reentrada na cadeia industrial. No descomissionamento, a mobilização de ativos offshore reativa uma cadeia robusta. Sondas de intervenção para abandono de poços demandam serviços especializados, desde engenharia de poços até hotelaria offshore, alimentação, manutenção, inspeção e suporte logístico. Em paralelo, embarcações de apoio e PLSVs operam com ROVs em atividades de desconexão e pull out, gerando demanda por bunker, abastecimento, docagem, manutenção e serviços portuários.

desativação da P-35, após 29 anos de operação no campo de Marlim, não representa o encerramento

de um ativo. Representa a ativação de um novo ciclo industrial, no qual o descomis- sionamento deixa de ser tratado como obrigação regulatória e passa a ser estruturado como plataforma de economia circular. Esse movimento não começa no fim. Ele começa na origem. Quando uma unidade como a P-35 é concebida, construída e instalada, já se forma uma cadeia industrial complexa, envolvendo estaleiros, fabricantes, integra- dores, operadores logísticos e múltiplas camadas de fornecimento de bens e serviços. Essa cadeia permanece latente durante a fase produtiva e é reativada, com intensidade ainda maior, no descomissiona- mento.

É nesse ponto que o Programa Nacional de Resíduos Sólidos ganha protagonismo real.

Aqui, a economia circular não é conceito. É fluxo econômico direto.

A PNRS deixa de ser uma diretriz genérica e passa a ser instrumento operacional de rastreabilidade, responsabilidade comparti- lhada e valorização de resíduos como ativos.

No desmantelamento, o protagonismo se desloca para os estaleiros.

O elemento estruturante dessa transição é o planejamento.

Foto: Divulgação

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