Sandra Brito Fornelos, Sociedade Portuguesa de Psicanálise
No dia 1º de Abril, uma senhora idosa e baixa, mudou-se para o apartamento ao lado. Estávamos muito curiosos para conhecer a nossa nova vizinha. Este sempre foi um bairro muito tranquilo, com muita vida familiar e rodeado de espaços verdes e alguns canteiros floridos que deixavam no ar um cheiro adocicado, durante a Primavera. Era muito bom viver aqui. Recordo-me, vezes sem conta, das longas noites de trabalho em que se percebia que o dia ia clarear quando começávamos a ouvir o intenso chilrear dos pássaros, a anunciar o início de um novo dia. Nos últimos anos víamos grandes mudanças a acontecer: muitos dos moradores mais antigos tinham saído, e sido substituídos por grupos de jovens estrangeiros que mudavam a cada semana. Passou a ser difícil conhecer os vizinhos ou estabelecer com eles algum tipo de relação, tendo em conta a curta permanência. A tranquilidade e quietude habitual era frequentemente alterada, e já não havia tanto cuidado com os canteiros, as flores, as ruas, os espaços. Numa cidade grande, que se torna por vezes hostil, este nosso pequeno recanto era um refúgio que queríamos manter intacto, fomentando as relações de proximidade e cuidando uns dos outros, numa reciprocidade empática, calorosa e afectiva. A ideia de voltar a ter o apartamento do lado ocupado, deixava-nos na expectativa do que daí viria e, cheios de curiosidade tocámos à porta para nos apresentarmos e levarmos um pequeno presente de boas vindas, umas deliciosas bolachinhas caseiras. On April 1st, a short, elderly woman moved into the apartment next door. We were very curious to meet our new neighbor. This had always been a very quiet neighborhood, with a lot of family life and surrounded by green spaces and some flowerbeds that left a sweet scent in the air during the spring. It was wonderful to live here. I remember, countless times, the long work nights when we knew the dawn was about to break when we began to hear the intense chirping of birds, announcing the beginning of a new day. In recent years, we had seen great changes taking place: many of the older residents had left, replaced by groups of young foreigners who changed weekly. It became difficult to get to know the neighbors or establish any kind of relationship with them, given the short stay. The usual tranquility and stillness were frequently disturbed, and the flowerbeds, flowers, streets, and spaces were no longer as carefully tended. In a large city that can sometimes become hostile, this little corner of ours was a refuge we wanted to keep intact, fostering close relationships and caring for one another in an empathetic, warm, and affectionate reciprocity.
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