ENTREVISTA
CM: Acompanhei essas transformações ocupando funções muito distintas ao longo da carreira, o que me permitiu perceber que nenhuma inovação se consolida apenas pela tecnologia — ela só se torna real quando é compreendida e incorporada por todas as disciplinas e pessoas envolvidas. A tecnolo- gia é essencial, mas são as pessoas que trans- formam inovação em resultado operacional. Comecei minha trajetória embarcando no PP Moraes, em meados dos anos 1980. Curiosa- mente, ninguém a bordo sabia que aquilo era um FPSO; tratávamos a unidade como um navio, que era o que realmente era, chamando-o de Navio de Processo PP Mora- es. Só anos depois descobri a nomenclatura. Se eu tiver que apontar a ruptura que abriu caminho para tudo o que veio depois, foi a mudança do conceito de “navio que preci- sa docar frequentemente” para um concei- to novo de um FPSO estacionário, capaz de permanecer no campo pelo tempo necessá- rio. Essa quebra foi decisiva para a evolução da produção offshore no mundo. Quanto ao que não volta atrás, poderia citar a digitalização ou o abandono da visão de FPSO como commodity. Mas esco- lho algo menos óbvio: não voltaremos ao conceito de soluções provisórias, temporá- rias (que, paradoxalmente ao que se imagina, tem suas vantagens em alguns casos). É um
Mitidieri, como executivo de larga trajetória, qual transformação na governança desses megaprojetos foi mais determinante para elevar a maturidade da indústria? JM: A continuidade de projetos é o que traz maturidade. Começamos com FPSOs de 5 a 6 mil toneladas de topsides e hoje traba- lhamos com unidades que chegam a 60 mil toneladas. Esse salto não aconteceu da noite para o dia — foi fruto de muito aprendiza- do e desenvolvimento de todos os envolvi- dos. A garantia de que muitos projetos ainda virão é o que permitirá formar novos talen- tos e elevar ainda mais o nível da indústria. O&GB: Na visão do Mastrangelo, quais desafios técnicos permanecem sem solução definitiva e continuarão exigindo inovação na próxima geração de FPSOs? CM: Abordamos no livro algo neste sentido. Quando falamos sobre segurança e a mudança cultural na sociedade, apre- sento algo que aprendi desde meu tempo de embarcado nas plataformas. Existe uma falsa associação entre eficiência e flexibili- dade operacional. Maior flexibilidade nem sempre traz maior eficiência — e frequente- mente reduz segurança. Além disto, esse movimento contribui para aumentar a complexidade, riscos e custos, sem benefícios equivalentes.
paradigma difícil de justificar hoje, com fatores psicológicos e operacionais envolvi- dos — e que exploramos no livro em mais detalhes. O&GB: Qual o momento em que a indús- tria abandonou a lógica de adaptação de petroleiros e passou a desenvolver FPSOs como sistemas complexos e integrados? CM: Participei dessa transição em diferen- tes frentes. A verdadeira mudança não foi apenas tecnológica — foi cultural. A primei- ra fase foi marcada por choque de realidade: projetos replicantes e padronizados, típicos da cultura naval, versus projetos customi- zados para cada campo. Isso gerou muitos conflitos, atrasos e custos adicionais. Mas foi um período de aprendizado. Nos anos 90, vivemos também uma efer- vescência rara: ideias em ebulição, algumas visionárias, outras inviáveis. Houve até uma febre de projetos especulativos. Algumas empresas faliram, outras prospera- ram. Um caso emblemático de sucesso está no livro — e mostra por que certos projetos especulativos deram certo enquanto outros não. O&GB: O desenvolvimento dos FPSOs no Brasil exigiu coordenação inédita entre operadoras, estaleiros, afretadores, fornece- dores e empresas de engenharia.
O&GB: Mitidieri, em que momento você percebeu que parte do conhecimento acumulado em décadas de projetos corria o risco de permanecer apenas na memória dos profissionais — e que era necessário transformá-lo em legado estruturado? JM: Não foi uma descoberta, mas uma cons- tatação. Quando a Petrobras lançou o proje- to de revitalização de Barracuda e Caratinga, eu e minha esposa, Denise — que também havia trabalhado no projeto de engenharia pelo Consórcio IESA/UTC — conversamos sobre o quanto aquele empreendimento ti- nha sido marcante. Pensamos juntos: como podemos simplesmente esquecer tudo isso? A partir desse momento, a ideia do livro co- meçou a se formar. Era um projeto desafia- dor, que envolveu muitos parceiros e cola- boradores. Espero sinceramente que sirva de lembrança para quem já viveu nesse merca- do e de ensinamento para quem ainda vai começar essa aventura no negócio FPSO. O&GB: Mastrangelo, ao longo da sua carreira, você acompanhou transformações profundas na concepção e operação de FPSOs. Entre todas as soluções que surgi- ram e depois foram superadas, qual avanço tecnológico provocou a maior ruptura na forma de projetar, integrar e operar um FPSO? E qual prática dominante dificilmente seria adotada novamente?
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REVISTA DIGITAL OIL&GAS BRASIL
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