Revista digital Oil & Gas Brasil Nº 78

ENTREVISTA

CM: Sim. Quando recebi o prêmio OTC Distinguished Achievement Award for Indi- viduals, em 2019, citei uma lição do meu pai: não se isole ouvindo apenas quem concorda com você. E falei que isso vale também para os FPSOs. Ouvir quem pensa diferente evita que você avance sem enxergar riscos. Nos anos 90, o ceticismo era enorme. Ouvi muitas vezes que era “loucura” pendurar tan- tos risers em um casco de navio. Mas trazer os críticos para perto cria um ambiente fértil para soluções robustas. O livro reflete exatamente isso: convidamos profissionais de diferentes especialidades, com pontos de convergência e alguns ate de divergência. O resultado é um espaço de discussão técnica em que apresentamos não somente uma visão única, mas múltipla da indústria. O&GB: A nova geração ingressa em um mercado mais digitalizado e orientado a riscos. Que competências se tornaram indis- pensáveis? JM: A busca constante por conhecimento, aliada a uma visão estratégica de projetos, é fundamental. A tecnologia precisa ser usa- da de forma efetiva, integrada ao planeja- mento e à comunicação perfeita entre todas as partes. A gestão estratégica hoje exige muito mais do que domínio técnico: exige capacidade de articulação, clareza de obje-

tivos, integração entre equipes e habilidade para navegar em ambientes complexos e multiculturais. O&GB: Que conceito vocês esperam que permaneça atual daqui a vinte anos — e qual inevitavelmente será transformado pela tecnologia? CM: A dinâmica de relacionamento inter- pessoal não muda. Conflitos, ambições e mobilizações de projetos têm características semelhantes ao longo dos séculos. Mas algo precisa evoluir: a fragmentação entre disci- plinas. Muitos lideres buscam que seus cola- boradores ‘pensem fora da caixa’. Eu sempre fiz diferente, busquei sempre eliminar as cai- xas. Promovia reuniões gerais semanais de portas abertas, sem assuntos confidenciais entre áreas, e ia muito além disto, buscava que as empresas que participavam dos pro- jetos, estivessem também dentro da ‘mesma caixa’. Essa filosofia é tão importante quanto qualquer inovação tecnológica pois trata-se de uma mudança da relação operadora-for- necedora para uma relação de parceria. O livro também mostra como mudou o conceito de segurança na sociedade. Quan- do eu era criança, na cidade de Nova Fri- burgo no interior do Rio, vivia machucado. Descia ladeira em carrinho de rolimã e ro- tineiramente voltava para casa todo ralado. Anos depois, quando comprei patins para meus filhos, naturalmente comprei também

Os gargalos atuais são consequência do “efeito pêndulo”: projetos levados ao extremo da complexidade e tamanho, que depois precisam buscar um ponto de equilíbrio para garantir operabilidade, exequibilidade, eficiência e resiliência financeira. Mas o retorno ao equilíbrio encontra resistências. Sempre digo aos meus colaboradores: é fácil acrescentar complexidade; difícil é simplifi- car. Isso exige domínio técnico e capacidade de liderança na mobilização. O&GB: Ao revisitar décadas de projetos, houve algum movimento empresarial, regu- latório ou de gestão que foi subestimado na época, mas decisivo para consolidar o Brasil como referência mundial em FPSOs?

JM: Não existe um único fator responsá- vel por onde chegamos. O Brasil tem uma característica geológica singular, que nos permite ter muito óleo em águas cada vez mais profundas. Diversos ato- res vêm trabalhando fortemente para tornar nosso mercado cada vez mais robusto. A continuidade e a sequência de proje- tos que ainda estão por vir garantem essa posição ímpar. O&GB: Mastrangelo, houve alguma deci- são de engenharia ou escolha tecnológica que gerou controvérsia, mas que o tempo mostrou ser a opção correta?

Foto: Divulgação

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