Dicionário Enciclopédico de Psicanálise da IPA

DICIONÁRIO ENCICLOPÉDICO INTER-REGIONAL DEPSICANÁLISEDA IPA ASOCIAÇÃOLIVRE

IDENTIFICÃO PROJETIVA

SÉLF

TEORIADAS RELAÇÕESDE OBJETO

CONTINÊNCIA

OINCONSCIENTE

PSICOLOGIA DOEGO

TEORIADAS COMUNICAÇÕES

DICIONÁRIO ENCICLOPÉDICO INTER-REGIONAL DE PSICANÁLISE DA IPA

SUMÁRIO

AMAE ...............................................................................................................................................2 CONFLITO ....................................................................................................................................15 CONTINÊNCIA: CONTINENTE-CONTIDO ...........................................................................68 CONTRATRANSFERÊNCIA ......................................................................................................81 ENACTMENT .............................................................................................................................112 O INCONSCIENTE .....................................................................................................................133 SETTING (PSICANALÍTICO) .....................................................................................................213 TRANSFERÊNCIA .....................................................................................................................235

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AMAE Entrada Tri-Regional

Consultores Inter-regionais: Takayuki Kinugasa (América do Norte), Elias M. da Rocha Barros (América Latina) e Arne Jemstedt (Europa) Co-presidente da Coordenação Inter-regional: Eva D. Papiasvili (América do Norte) ————— Tradução para o português: Cristina Farias Ferreira (Sociedade Portuguesa de Psicanálise) Coordenação e edição para a tradução para o português: Maria Cristina Garcia Vasconcellos (Sociedade Psicanalítica de Porto Alegre)

I. DEFINIÇÃO INTRODUTÓRIA

Amae é uma palavra japonesa usada quotidianamente. É um substantivo derivado de amaeru, um verbo. Ambos derivam dum adjetivo, amai , que significa "gosto doce". Amaeru é uma combinação dum verbo, eru , que significa "procurar " ou "obter" e amai. Assim, o significado original de amaeru é literalmente o de obter doçura. No uso comum, amaeru refere- se a comportar-se de modo infantil e dependente para atrair indulgência, para obter o que é desejado: seja afeto, proximidade física, apoio emocional ou real ou concessão dum pedido. Trata-se dum comportamento de apelo ao desfrute de indulgência e presume um grau de proximidade familiar ou íntima. Normalmente, o infante ou a criança pode atrair uma figura materna ou um cuidador dum modo docemente dependente para que os seus desejos sejam satisfeitos. Os comportamentos a mae e amaeru são observados fora do ambiente familiar e para além do período da infância nas interações interpessoais japonesas. Podem ocorrer em amizades pessoais próximas, na intimidade dum casal, na família alargada ou dentro de pequenos grupos coesos, como colegas de turma ou colegas de equipe. Também são encontrados em relacionamentos onde existem diferenciais de poder ou de status, como entre professor / aluno, chefe / subordinado ou colegas seniores / juniores. Dependendo das circunstâncias interpessoais, o fenómeno amae é amplamente aceite como significante da força e da solidez dum relacionamento, por um lado, mas, por outro lado, pode ser entendido negativamente como sinal de imaturidade da pessoa, autoindulgência, senso de direito ou falta de consciência social e de senso comum. No Dicionário Norte Americano de Compreensão da Psicanálise, Salman Akhtar (2009) define Amae como “um termo japonês, que significa uma interação intermitente, recorrente, culturalmente padronizada, em que as regras comuns de propriedade e formalidade

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são suspensas, permitindo que as pessoas recebam e deem apoio afetuoso ao ego uma da outra “(p. 12). Esta definição baseia-se na definição de Takeo Doi (1971/73) do termo, que se ampliou na terminologia psicológica do ego por Daniel Freeman (1998), para ser uma "regressão mútua interativa ao serviço do ego, que gratifica e serve o crescimento intrapsíquico progressivo e o desenvolvimento dos dois participantes "(Freeman, 1998, p.47). Os editores do dicionário japonês de psicanálise (Okonogi, K, Kitayama, O, Ushijima, S, Kano, R, Kinugasa et al., 2002) também se baseiam na definição de Doi e mencionam as complexidades da dependência emocional preverbalmente enraizada contida nos fundamentos dinâmicos de amae . Não existe nenhum dicionário ou glossário conhecido em qualquer das línguas da IPA na Europa e na América Latina que inclua o termo amae , que assim tem permanecido amplamente desconhecido até ao momento para o mais vasto público psicanalítico. Este artigo expõe e desenvolve as fontes acima citadas.

II. DESENVOLVIMENTO DO CONCEITO

Como fenómeno psicológico, o conceito de amae foi introduzido e enfatizado por Takeo Doi na sua publicação de 1971 "A Anatomia da Dependência", que foi traduzida em 1973 para o público ocidental. Ele descreveu uma variedade de comportamentos amae nas interações sociais e clínicas japonesas e expressou a ideia da importância essencial do conceito de amae na compreensão da psicologia do povo japonês. O autor traduziu amae como "dependência ou dependência emocional" (1973) e definiu amaeru como significando "depender e presumir a benevolência de outrem" (1973). Ele considera-o revelador de “desamparo e desejo de ser amado" e a expressão da "necessidade de ser amado" e vê-o como equivalente a necessidades de dependência. Ele considera como protótipo a psicologia da criança em relação à mãe, não um recém-nascido, mas a criança que já percebeu que sua mãe existe independentemente de si mesma (Doi, 1973). Na sua última publicação, Doi (1989) amplia a formulação dinâmica de amae : “Outro aspeto importante do conceito de amae é que embora indique em primeiro lugar um estado mental de satisfação, quando a necessidade de amor é satisfeita pelo amor do outro, também pode aludir a essa mesma necessidade de amor, porque nem sempre se pode contar com o amor do outro, por mais que se o deseje. Daí resulta que o estado de frustração em amae , cujas variadas fases podem ser descritas por um rol de palavras japonesas, também pode ser referido como amae e, de fato, muitas vezes é assim denominado, pois, evidentemente amae é mais intensamente sentido aquando do desejo frustrado do que quando realizado. Devido a este uso da palavra podemos falar de dois tipos de amae , um originário aquando da certeza dum destinatário disposto a satisfazê-lo e outro conturbado aquando da incerteza da existência dum tal destinatário. O primeiro tipo é infantil, inocente e tranquilo: o segundo é imaturo, caprichoso e mais exigente: para dizer simplesmente, bom e mau amae , por assim

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dizer ... "(Doi, 1989, pág. 349.) (Referência bibliográfica: Doi, T. (1989/2011). O conceito de amae e suas implicações psicanalíticas. Alter -Revista de Estudos Psicanalíticos, v.29(I)129- 138, 2011. Tradução Avelino Neto. Revisão de Maria Luiza Gastal, pp130. Disponível em http://www.spbsb.org.br/site/images/Novo_Alter/2011_1/08Takeo.pdf) (NT. Concordo com Avelino Neto quando refere, em tradução do texto de Doi atrás citado, " Parece que o autor teve dificuldades em encontrar adjetivos em inglês, que reflectissem apropriadamente as duas qualidades de amae…": op cit, pp132.) ( As traduções das citações são de minha inteira responsabilidade com exceção das convenientemente assinaladas.) A afirmação de Doi de que amae , ou seja, a dependência emocional, distingue a psicologia do povo japonês de forma especial e única tem sido aceite com entusiasmo e também com cético criticismo. Daí surgiram debates como: De que maneira específica a psicologia do povo japonês deve ser entendida? Doi propõe que o caráter japonês seja essencialmente dependente? Como é que o conceito de amae se articula com as teorias e práticas psicológicas e psicanalíticas existentes? De que modo amae se correlaciona com a compreensão do desenvolvimento humano universal? Como é que o conceito de amae contribui para novos desenvolvimentos específicos na teoria e prática da compreensão psicanalítica?

III. PERSPECTIVAS SÓCIO-CULTURAIS

Erik Erikson (1950) descreveu a maneira como as variadas e específicas influências sociais e culturais resultam em diferentes modos de adaptação durante o processo de crescimento e desenvolvimento psicológico do ser humano. Ele ampliou as fases de desenvolvimento psicossexual de Freud, baseadas na biologia, para incluir fases psicossociais do desenvolvimento humano para além da resolução edipiana, estendendo-as ao longo do ciclo de vida. Podem ser também avaliados neste contexto o conceito de amae de Doi e a sua significação na compreensão da natureza específica da psicologia dos japoneses. Muitos cientistas sociais e observadores interculturais assinalaram a particularidade da sociedade japonesa e as respetivas adaptações psicológicas. O conceito de amae de Doi acrescenta outra dimensão a este discurso. Algumas características importantes observadas como específicas da sociedade e da cultura japonesas incluem: 1. Relações sociais hierarquicamente organizadas; 2.Orientação grupal sobre a distinção individual; 3.Separação do privado e do público, de relações internas e externas em pensamentos, sentimentos e conduta; 4. Ênfase na vergonha (gerada pelo julgamento externo) e na culpa (expressão de julgamento interno);

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5. Evitamento de conflitos e valorização da harmonia; 6. Estilo parental indulgente, responsivo e permissivo durante a infância e a primeira infância, seguido de atribuição de função social cada vez mais rigorosa e controle comportamental em anos posteriores. Amplamente reconhecida e observada vivamente por antropólogos culturais como Ruth Benedict (1946) e o historiador Edwin O. Reischauer (1977), e articulada ainda mais por Chie Nakane, o mais conhecido antropólogo japonês fora do Japão (1970), é a omnipresença da natureza hierárquica vertical da maioria dos relacionamentos japoneses. Relacionado e interligado com o atrás exposto, as características citadas acima são o eco cultural e psicológico de quatro séculos dum sistema feudal de rígida estratificação de classe política e socioeconômica. A modernização sob influência do Ocidente teve início no final do século 19 e desenvolveu-se sobretudo após a Segunda Guerra Mundial com as novas instituições governamentais democráticas e muitas mudanças sociais na vida pública política, económica e tecnológica. No entanto, os valores e características culturais tradicionais têm vindo a perdurar na vida japonesa contemporânea como correntes psicológicas inferiores. Reischauer (1977) chama a atenção para a capacidade de adaptação japonesa à mudança e reconhece muitas semelhanças entre os orientais e os ocidentais. Dean C. Barnlund (1975), em análise cultural comparativa dos EUA e da aderência japonesa aos valores culturais fundamentais transmitidos como normativos numa sociedade, refere-se a amae como representante do "inconsciente cultural". Crucial na compreensão de amae deste ponto de vista é a prática de maternagem que proporciona proximidade física constante, indulgência, responsividade, cuidados maternais profundamente empáticos e a disponibilidade de outros cuidadores ao redor da criança. Devido ao espaço físico limitado da vida insular, a proximidade de outras pessoas e a necessidade de viver lado a lado tornam-se condição de vida no Japão. Não só a família alargada, mas também os vizinhos e a comunidade circundante são apresentadas a uma criança muito cedo. Qualquer adulto na vizinhança é chamado oji-san, tio, ou oba - san , tia, e as crianças mais velhas são one i- san , irmã mais velha ou onii - san , irmão mais velho. Eles constituem potenciais cuidadores na vida duma criança, proporcionando uma sensação de segurança em pertencer ao grupo. Alan Roland (1991) contrastou vivamente o conceito de "self familiar" predominante na psique japonesa, enraizado nas relações hierárquicas emocionais subtis da família e do grupo, com o "self individualizado" ocidental. Reischauer (1977) considera que os japoneses não são assim tão apegados à família, mas mais aos grupos circundantes. Isso pode sugerir um " self grupal " no sentido de que uma criança muito cedo identifica e internaliza o seu lugar num grupo. Ilustrativo desta dinâmica é uma celebração ritual tradicional japonesa chamada Hichi-Go-San . Crianças de idades de 2 a 3, 4 a 5 e 6 a 7 são celebradas em trajes tradicionais e levadas ao santuário local da comunidade onde residem. Elas recebem doces e brinquedos como presentes numa celebração coletiva duma passagem da infância.

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IV. IMPLICAÇÕES PSICANALÍTICAS DO CONCEITO DE AMAE

Conforme considerado anteriormente, embora Doi seja de muitas maneiras preciso e perspicaz em demonstrar o fenómeno particular de amae nos japoneses e em interações clínicas, a sua primeira definição sobre o conceito de amae (1973) como "necessidade de dependência no desamparo" e "desejo de ser amado" desencadeou uma série de debates teóricos e clínicos. Do ponto de vista do desenvolvimento, amae precede a aquisição da linguagem na criança. Por exemplo, os japoneses dizem duma criança que expressa ativamente os seus desejos pela mãe: "Esta criança está desta maneira emocionalmente dependente ( amaeru )". Quando a criança continua a experienciar o desejo de presença da sua mãe, esta configuração emocional torna-se no núcleo da sua vida emocional consciente e inconscientemente. Isto pode ser comparado ao que Freud expôs sobre o conceito de "sexualidade", exclusivo da psicanálise. "Utilizamos a palavra sexualität ['sexualidade'] no mesmo sentido abrangente que aquela em que a língua alemã usa a palavra lieben [' amar']" (Freud, 1910). Neste sentido, os japoneses pensam no complexo de Édipo, onde amor e sexo estão entrelaçados, embora não existam palavras que correspondam a lieben ou amor na língua japonesa. Em conformidade pode-se considerar que " amae ” constitui o fluxo principal da vida emocional ao longo das nossas vidas antes do complexo de Édipo, mesmo no mundo exterior ao Japão, onde a palavra " amae " ainda não existe. Embora amae corresponda a um conceito verbal como amor, contudo, ao contrário deste, caracteriza-se pelo fato de não conter "sexualidade" por si só. Além disso, há indícios de que os elementos de amae estão contidos em vários estados psíquicos subjacentes à ambivalência. Assim sendo, pode ser útil comparar amae a vários conceitos psicanalíticos conhecidos. Freud afirmou que havia duas correntes de amor: a corrente afetiva e a sensual. "A corrente afetiva é a mais antiga das duas. Constitui-se nos primeiros anos da infância; forma- se na base dos interesses do instinto (N.T. Como nos lembram Laplanche e Pontalis, «a escolha do termo instinct como equivalente inglês ou francês de Trieb não só é uma inexatidão de tradução como ameaça introduzir uma confusão entre a teoria freudiana das pulsões e as concepções psicológicas do instinto animal e esbater a originalidade da concepção freudiana designadamente a tese do caracter relativamente indeterminado do impulso motivante e as noções de contingência do objeto e da variabilidade dos alvos» in Laplanche e Pontalis(1967/1990). Vocabulário da Psicanálise. Lisboa: Editorial Presença, p.210.) de autopreservação e dirige-se aos membros da família e aos que cuidam da criança ... "(Freud, S. (1912/1969). Sobre a tendência universal à depreciação na esfera do amor. Edição Standard Brasileira das Obras Psicológicas Completas de Sigmund Freud. Rio de Janeiro: Imago, Vol. XI, pp- 186). Isto corresponde aos princípios pulsionais de auto preservação de amae. A corrente afetiva decorrente disto foi absorvida no conceito de narcisismo (Freud, 1914). Aqui, Freud escreveu que, embora o narcisismo primário não possa ser confirmado por observação direta, pode ser inferido da "atitude de pais afetuosos para com os filhos [...] que é uma revivescência e reprodução de seu próprio narcisismo, que de há muito abandonaram" (Freud, S.(1914/1969). Sobre o Narcisismo: Uma Introdução. Edição Standard Brasileira das Obras Psicológicas Completas de Sigmund Freud. Rio de Janeiro: Imago, Vol. XIV, 97). Enquanto

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Freud (1930) aboliu a sua concepção da pulsão de auto preservação e chegou à conclusão de que a afeição era uma manifestação de Eros (pulsão sexual) (N.T. " As pulsões de vida também designadas pelo termo Eros, abrangem não apenas as pulsões sexuais propriamente ditas, mas ainda as pulsões de autoconservação" in Laplanche e Pontalis(1967/1990). Vocabulário de Psicanálise. Lisboa. Editorial Presença, pp.356) cujo objetivo original é reprimido, Doi propôs que amae correspondesse à pulsão de auto preservação de acordo com a teoria inicial de Freud das pulsões e definiu amae como necessidade de dependência derivada da pulsão. Além disso, Freud (1921) viu a identificação como a primeira expressão dum laço emocional com outra pessoa, ambivalente desde o início. Assim, a identificação de Freud pode corresponder às propriedades identificatórias e ambivalentes subjacentes a amae. Ao elaborar o conceito ainda mais dentro da matriz da relação de objeto, Doi (1989, p.350) reiterou que amae é relação objetal desde o início. Embora possa não corresponder ao conceito de narcisismo primário de Freud, “ajusta-se muito bem a qualquer estado mental que possa ser chamado de narcisista" (ibid, p.350). Neste sentido, as propriedades narcisistas de amae subjazem a amae " conturbado que se expressa por ser imaturo, caprichoso e exigente. Na mesma linha, Doi (1989) escreve que (1989), "um novo conceito de self- objeto definido por Kohut como” esses objetos arcaicos catexizados com libido narcisista "(1971, p.3) será muito mais fácil de compreender à luz da psicologia de amae, uma vez que "a libido narcisista" não é outra coisa que amae conturbado "(Doi, 1989, p. 351). Nesta linha, os analistas japoneses consideram o conceito de "necessidades de self -objetos” de Kohut (Kohut, 1971) como quase equivalente a amae. Também a observação de Balint de que "na fase final do tratamento, os pacientes começam a expressar desejos infantis, pulsionais, há muito esquecidos, e a exigir a sua gratificação por parte do meio " (Balint, 1936/1965, p.181) torna-se relevante, porque "o amae originário se manifestará somente após as defesas narcísicas terem sido elaboradas na análise" (Doi, 1989; p. 350). Com base em Freud e Ferenczi, as idéias de Balint (1936/1965) sobre "amor objetal passivo" e amor primário são conceitualmente mais próximas de " amae ". Ele considerava que as línguas indo europeias não distinguem claramente entre as duas formas de amor objetal, ativa e passiva. Enquanto o objetivo é sempre de obter amor passivo, primário (ser amado), se a criança receber do meio amor e aceitação suficientes para mitigar frustrações, a criança pode progredir para o amor objetal ativo em vez de recebê-lo (configuração de 'amor objetal ativo). Em termos clínicos, existe um vínculo entre amae primitivo e o termo "regressão benigna" de Balint e entre amae conturbado e seu termo "regressão maligna". Embora Fairbairn (1952) valorizasse o processo de dependência no desenvolvimento precoce em geral, ele não adotou a ideia da necessidade de dependência dentro do seu sistema de relações de objeto. Os conceitos de inveja de Klein ( higami /inveja) e a identificação projetiva (1957) podem ser vistos como amae distorcido, enquanto compartilham o mesmo objeto. Muitos analistas japoneses vêm Bion (1961) como tendo "predito” o amae de Doi no contexto da dinâmica de grupos, quando postulou um sentimento de segurança existente em cada um dos estados emocionais associados às fantasias dos três pressupostos básicos: dependência, luta- fuga e acasalamento. Do mesmo modo, os conceitos de " continente " e

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"conteúdo" de Bion, bem como o holding de Winnicott, a “adequada adaptação " de Hartmann e a "inter afectividade" de Stern revelam subjacente similaridade conceitual com amae , enquanto apresentam reflexões a partir de diferentes perspetivas sobre a dependência infantil aos pais, clinicamente aplicáveis à matriz intersubjetiva da transferência-contratransferência no processo psicanalítico.

V. PERSPECTIVAS PSICANALÍTICAS DE DESENVOLVIMENTO ADICIONAIS

Do ponto de vista dinâmico do desenvolvimento, é importante ressaltar que Doi (1971) considera a origem de amae no relacionamento do bebé com a sua mãe, não enquanto recém-nascido, mas quando se apercebe da sua existência independente e a vê como fonte indispensável para gratificação. Isto sugere que amae surge numa fase de desenvolvimento, quando já ocorreu a diferenciação do ego, quando a cognição, o julgamento e a identificação já vigoram e a constância objetal foi alcançada. Implica ainda que a fase de separação- individuação de Mahler (1975) está a progredir após desenvolvimento com sucesso da fase simbiótica e da prática da fase subsequente. A mãe passa a existir como um ser separado e o seu desfrute benevolente e indulgente para com a criança foi internalizado. Se for este o caso, a estrutura psíquica do superego também se encontra prestes a emergir. As prestações japonesas prevalecentes de cuidados às crianças parecem apoiar este ponto de vista. A abundante atenção materna com capacidade de resposta empática não-verbal e a proximidade física e emocional disponíveis conduzem a uma passagem satisfatória através da fase simbiótica e da fase de separação-individuação do desenvolvimento da criança. Os avanços na pesquisa sobre a infância (Stern, 1985), bem como na psicologia do self, nos últimos anos, endossam esta abordagem parental que promove o crescimento conduzindo a um conceito consolidado do self. No resumo esquemático do desenvolvimento de Gertrude e Rubin Blanck (1994), podemos considerar amae como oriundo do processo de neutralização da pulsão agressiva aquando do processo de separação-individuação num progresso ativo. Começando com o treino de toilet e a capacidade de controlar as funções corporais e as expressões fálicas assertivas individuais surgirá uma moderação da pulsão agressiva pelo desenvolvimento do superego. Contrariamente a este cenário típico ocidental, Reischauer (1977) observa que o treino de toilet e a disciplina comportamental das crianças japonesas são realizados com afabilidade e com cuidados constantes, através de exemplos, incentivos e lembretes. Estes métodos promovem a identificação da criança com os cuidadores na moderação da pulsão agressiva e a renúncia às necessidades individuais em favor da adaptação às expectativas externas, chegando assim por uma via diferente à formação do superego. No entanto, as regras externas, os papéis, as exigências de harmonia, obediência, etc., cada vez mais complexas e frequentemente restritivas, são valores culturais difíceis de serem adaptados, causando um stress considerável sobre a psique individual ainda frágil. A vergonha oriunda de julgamento externo e a ameaça

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de retirada duma ligação amorosa podem ser utilizadas para levar ao cumprimento das exigências do superego na renúncia às necessidades individuais da criança. Nestas negociações conflituosas entre o superego e as exigências do Id, pode haver lugar a regressão à fase de aproximação, quando a criança procura uma reafirmação temporária do conforto da simbiose materna antes de avançar novamente rumo a um caminho individualizado e separado. Tanto Akhtar (2009) quanto Freeman (1998) descrevem o aspeto de reabastecimento emocional da função de amae. A observação de Freeman de amae como anseio temporário, intermitente e a sua ênfase no benefício mútuo recíproco da interacção amae apoiam esta hipótese. Ampliando a sua observação da mutualidade na interação amae, também deve ser entendido que amae pode ser iniciado pela parte "dependente" principalmente em benefício da outra parte. Por exemplo, o recetor de amae pode, consciente ou inconscientemente, pressentir a necessidade duma mãe ansiosa em ser tranquilizada pela criança, porque a necessidade de separação da criança pode ser sentida por ela como rejeição; amae também pode atender à necessidade dum chefe inseguro de sentir o poder sobre um subordinado adulador, ou a necessidade dum pai idoso de experenciar seu valor perante uma criança crescida. Por este motivo, às vezes o comportamento “amigável" de amae pode camuflar uma busca agressiva desafiadora formulada de forma apropriadamente dependente, o que corresponderia à referência de Doi (1989) a " amae negativo / conturbado". Enquanto a definição original de Doi de amae (1971, 1973) como "desejo indefeso de ser amado" enfatiza o aspeto da passividade, esta dimensão passiva parece ter a sua própria complexidade. Tal como Doi (1971, 1973, 1989), Balint (1935/1965, 1968) considera amae como um esforço/ necessidade primária com uma base biológica e desejo de amor, e Bethelard e Young-Bruehl (1998) consideram amae de Doi como a expectativa em ser indulgentemente amado, a que eles designam acarinhamento, de origem pulsional e surgindo no nascimento. Eles, assim como Doi antes deles, propõem uma reconsideração da hipótese da pulsão de auto conservação do ego, com relação a amae . Tendo em conta a pesquisa infantil mais recente que menciona uma maior aptidão infantil para o envolvimento ativo, a gama "passivo-ativo", pertencente a amae , pode requerer estudos mais aprofundados. No contexto de amae , esta atividade observada comportamentalmente, por exemplo nos estudos sobre o attachment de Bowlby (1971), reflete uma experiência interna, com o attachment como sua manifestação comportamental (Doi 1989). Podemos colocar a hipótese que psicanaliticamente amae apresenta um conceito em camadas, que retrata um esforço pulsional /afetivo ativo para receber amor passivamente, sendo indulgente. Uma alternativa para a definição de amae de Doi como "desejo-pulsão " (1971) seria reformular a definição de amae, como um tipo específico de defesa, particularmente prevalecente na psicologia japonesa, embora certamente exista noutros lugares, Oriente ou Ocidente. Podemos então considerar amae como operação defensiva do ego, um "apelo à indulgência/ tolerância", que gere as exigências do superego e as do id ou desejos individuais, onde quer que estejam localizados no ciclo de vida do desenvolvimento. Esta forma de defesa egóica talvez seja necessária para a adaptação a uma sociedade rígida, que exige uma conformidade inflexível superegóica. A ordem relacional hierárquica e a orientação grupal, com estrito cumprimento das regras, dos papéis e da conduta, onde pensamentos e emoções

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privados devem ser mantidos em segredo, e onde os conflitos são resolvidos por causa da vergonha, tudo parece ser uma maneira de lidar com um superego que se originou numa sociedade feudal. Para funcionar com estas exigências de superego rígidas ou exigentes, amae conta com a comunicação emocional não-verbal e com respostas empáticas e de "doce” compreensão como “tolerância" - "indulgência" - como uma defesa necessária contra sua pulsão agressiva ou de ansiedade em torno da possível perda do objeto. A mediação do Ego por parte de amae abre espaço para a vida emocional privada duma pessoa e permite algumas vias para a expressão de energias pulsionais individuais, libidinais ou agressivas. Amae tem origem na identificação com experiências pré-verbais dum cuidador indulgente, com a capacidade para sentir as necessidades e desejos emocionais da criança a que responde com empatia, análogo talvez ao conceito de "preocupação materna primária" de Winnicott (1965), ao caracterizar "a mãe devotada ". Neste contexto, a diferenciação de Winnicott entre a mãe- ambiente que providencia relações do ego ( holding , ternura, empatia) e a mãe-objeto a quem se dirigem os impulsos /pulsões do id, podem representar a posterior reprodução, do ponto de vista das relações de objeto, da divisão inicial de Freud entre correntes de amor afetivas e sensuais. As comunicações comportamentais de amae e amaeru podem ser reunidas numa variedade de operações defensivas, como repressão, regressão e regressão parcial, anulação, formação reativa, um "segredo mútuo" ou mesmo como caminho para a sublimação. Dentro desta formulação de defesa-adaptação também a noção de "mutualidade" está, do ponto de vista do desenvolvimento, relacional e transferencial, implícita em amae. Podem ser aplicáveis o conceito de Hartmann (1958), de bebé e mãe adaptados, a ideia de Winnicott (1965) de “holding", bem como o conceito de Bion (1962) de “continente / conteúdo ", o “self- objeto" de Kohut (1971) e a "inter afetividade" de Stern (1985). Os comportamentos amae podem estar operacionais ao longo do ciclo de vida sempre que os desejos e as necessidades do indivíduo colidam com as restrições culturais do superego.

VI. CONCLUSÃO

Resulta do exposto que os comportamentos e atitudes amae não podem ser vistos apenas como simples expressão de necessidade de dependência. É vantajoso considerá-lo dentro de permutações contextuais complexas de pulsão/ desejo, bem como de configuração defensiva. Esta visão complexa é especialmente aplicável às interações da transferência. O surgimento de amae na díade clínica pode indicar a transferência positiva pela crescente confiança e honestidade para com o clínico, o que pode promover a aliança de trabalho. Doi (1989) assume de fato que qualquer que seja o motivo consciente que induz o paciente a procurar tratamento psicanalítico, o motivo inconsciente subjacente é o de amae e, em última instância, ao longo do tempo, isto converte-se no núcleo da transferência. No entanto, os clínicos precisam estar conscientes da natureza hierárquica inerente da transferência,

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especialmente na situação clínica japonesa (ou, quanto a isso, em qualquer configuração psicanalítica) e ser sensível e estar em sintonia com a comunicação não verbal ou indireta tanto do amae "positivo" como do "negativo" , se estes forem conceitualizados como necessidades primárias, esforços pulsionais, mecanismos de defesa ou uma complexa configuração dinâmica de desenvolvimento de todos as características acima. Da mesma forma, a orientação grupal de pacientes japoneses não pode simplesmente ser entendida como falta de limites ou de individuação, como pode parecer simplista na cultura ocidental. Embora devamos a descoberta do conceito de amae ao contexto específico japonês, este pode ser encontrado em graus variados entre as culturas. Dentro dum contexto psicológico grupal, relaciona-se através de modos complexos à necessidade dum indivíduo separado de viver e pertencer a uma determinada configuração grupal. Do ponto de vista do desenvolvimento e clinicamente, enquanto se pode aperceber o eco do apoio constante materno precoce, continência e holding , a dinâmica interativa interna de amae estende- se por toda a vida do indivíduo (Doi, 1989; Freeman, 1998). A contribuição seminal de Doi sobre amae precisa ser apreciada como um conceito japonês de desenvolvimento regional específico e clínico com alcance global, fluência teórica enriquecedora e sensibilidade clínica nas fronteiras geográficas, cultura psicanalítica e condições individuais.

REFERÊNCIAS

Akhtar, S. and Kramer, S. (1998). The Colors of Childhood: Separation Individuation across Cultural, Ratial and Ethnic Differences. Northvale, NJ: Jason Aronson. Akhtar, S., ed. (2009). Comprehensive Dictionary of Psychoanalysis. London: Karnak. Balint, M. (1935/1965). Critical notes on the theory of pregenital organizations of the ibido. In Primary Love and Psycho-Analytic Technique . New York: Liveright Publishing. Balint, M. (1936). The Final Goal of Psycho-Analytic Treatment. Int. J. Psycho-Anal ., 17:206- 216. Balint, M. (1968). The Basic Fault: The Therapeutic Aspects of Regression. London, New York: Tavistock Publications. Benedict, R. (1946). The Chrysanthemum and the Sword . Cambridge, Mass: The Riverside Press. Bethelard, F. and Young-Bruehl, E. (1998). Cherishment Culture. American Imago. 55: 521- 542. Barnlund, D.C. (1975) Public and Private Self in Japan and the United States. Tokyo: Simul Press.

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Hartmann, H. (1958).

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Consultores Regionais e Colaboradores

América do Norte: Escrito em colaboração por Takayuki Kinugasa, M.D. e os membros da Sociedade Psicanalítica Japonesa; Nobuko Meaders, LCSW; Linda A. Mayers, PhD; Eva D. Papiasvili, PhD, ABPP

Europa: Revisto por Arne Jemstedt, MD, e os consultores europeus

América Latina: Avaliado por Elias M. da Rocha Barros, psicanalista e os consultores latino- americanos

Co-presidente de coordenação inter-regional: Eva D. Papiasvili, PhD, ABPP

Assistência editorial especial adicional: Jessi Suzuki, M.Sc.

O Dicionário Enciclopédico Interregional de Psicanálise da IPA está licenciado sob Licenças Creative Commons CC-BY-NC-ND. Os direitos principais permanecem com os autores (IPA e membros colaboradores da IPA), no entanto o material pode ser utilizado por terceiros, não com fins comerciais, desde que com atribuição total à IPA (incluindo a referência à URL www.ipa.world/IPA/Encyclopedic_Dictionary) em reprodução literal, não de forma derivada, editada ou remixada. Clique aqui para visualizar termos e condições.

Tradução para o português: Cristina Farias Ferreira (Sociedade Portuguesa de Psicanálise) Coordenação e edição para a tradução para o português: Maria Cristina Garcia Vasconcellos (Sociedade Psicanalítica de Porto Alegre)

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CONFLITO Entrada Tri-Regional Consultores Inter-regionais: Christine Diercks (Europa), Daniel Traub-Werner (América do Norte), Héctor Cothros (América Latina) Co-presidente da Coordenação Inter-regional: Eva D. Papiasvili (América do Norte) ————— Tradução para o português: Stephania Aparecida Ribeiro Batista Geraldini (Instituto Durval Marcondes, da Sociedade Brasileira de Psicanálise de São Paulo) Coordenação e edição para a tradução para o português: Maria Cristina Garcia Vasconcellos (Sociedade Psicanalítica de Porto Alegre)

“…É desse par de opostos/dessa antítese que brota nossa vida mental” (Freud, Carta a W. Fliess de 19 de Fevereiro de 1899; em Freud, S. 1950[1892-1899], p. 329).

I. INTRODUÇÃO E DEFINIÇÕES

Freud inaugurou a psicanálise com base no conflito psíquico, isto é, sobre uma compreensão do funcionamento da mente humana como uma interação de forças e tendências opostas. A psicanálise enfatiza, em especial, os efeitos dos conflitos inconscientes definidos como interações entre forças na mente das quais o indivíduo é inconsciente. Em um conflito, desejos, sentimentos, necessidades, interesses, ideias e valores opostos são confrontados entre si. Segundo a teoria psicanalítica o conflito psíquico é primordial para a dinâmica da mente humana e é, do ponto de vista da psicanálise clássica, abastecido pela energia instintual [pulsão] e mediado pelas fantasias que são afetivamente catexizadas. Todos os processos mentais estão baseados na interação de forças psíquicas conflitantes que, por sua vez, mantém complexa interação com estímulos externos. O principal objeto de estudo da psicanálise é o aspecto inconsciente e latente do conflito psíquico, que em última instância, tem sua origem a partir dos desejos infantis reprimidos. Esses conteúdos inconscientes ressurgem por meio de formas destorcidas, tais como os sonhos, atos falhos, sintomas, e sob a forma de manifestações culturais. Para Freud, o principal conflito da psicanálise é o conflito Edípico. Essa disputa – situada entre os desejos infantis e as proibições – é constitutiva das dinâmicas da vida psíquica e de suas manifestações. Além de suas qualidades dinâmicas, o conflito também possui inúmeros componentes metapsicológicos: Topográfico (consciente, pré-consciente,

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inconsciente), econômico (superestimulação sensorial, realidade e princípio do prazer), genético (dependente do desenvolvimento das funções egóicas) e estrutural (conflitos entre ego, superego e id). Ademais, o conflito Edípico se estabelece dentro da teoria dual dos instintos/pulsões (instinto sexual/instinto de auto-conservação, libido do ego/libido do objeto, instinto de vida/instinto de morte). Os teóricos que seguem a teoria das relações de objeto formularam conceitos que expandiram o cenário onde esses conflitos se desenrolam, uma vez que se voltaram para o caráter (internalizado) das relações do self e de objeto. A possibilidade do conflito estar acessível aos pensamentos conscientes, e assim poder, potencialmente, ser processado de forma realística ou ser recalcado, depende de fatores como, o poder das forças instintuais [pulsão] envolvidas, das capacidades mentais do indivíduo para o enfrentamento e das condições do ambiente. Os conflitos (inconscientes) podem ser conceitualizados de acordo com os seguintes binários, a medida que extrapolamos e expandimos o que nos dizem as publicações e os dicionários Norte Americanos, Europeus e Latino Americanos contemporâneos (Akhtar’s 2009; Auchincloss e Samberg 2012; Laplanche e Pontalis 1973; Skelton 2006; Borensztejn 2014): 1. Conflito Externo vs. Conflito Interno/Intrapsíquico: o primeiro se refere aos conflitos entre o indivíduo e o seu meio, enquanto que o último se refere àqueles dentro da sua própria psique; 2. Conflitos Externalizados vs. Conflitos Internalizados: os primeiros são relativos aos conflitos internos que foram transpostos à realidade externa, e os últimos aos problemas psíquicos causados pela assimilação das restrições do ambiente em oposição às nossas pulsões e desejos. 3. Conflitos do Desenvolvimento vs. Conflitos Anacrônicos: os primeiros se referem aos transformadores e normativos conflitos do desenvolvimento, específicos de cada etapa, causados pelo desafio dos pais aos desejos da criança ou pelos próprios desejos contraditórios desta última (Nagera, 1996), e os conflitos anacrônicos não são especificados pela idade e podem ser a base para psicopatologias durante a vida adulta. Este binário é descrito de forma similar por Laplanche e Pontalis (1973), como conflitos edípicos vs. conflitos defensivos; 4. Conflitos Intersistêmicos vs. Intrasistêmicos: os primeiros se referem à tensão entre id e ego ou entre ego e superego (Freud, 1923, 1926); os últimos (Hartman, 1939; Freud, A. 1965; Laplanche, 1973) àqueles entre diferentes tendências instintuais (amor- agressividade) ou diferentes atributos ou funções do ego (atividade-passividade) ou diferentes ordens do superego (modéstia-êxito); 5. Conflito Estrutural vs. Conflito das Relações de Objeto: o primeiro se refere à uma tensão gerada pela divergência entre as três principais estruturas psíquicas, ou seja, id, ego e

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superego (Freud, 1926), vividas como pertencendo inteiramente ao self do indivíduo, e o último, aos conflitos num espaço psíquico que é anterior a tal diferenciação estrutural (Dorpat, 1976; Kernberg, 1983, 2003). Conflito Edípico vs. Conflito Pré-Edípico é uma outra formulação existente para este binário; 6. Conflito do tipo oposição de forças vs. Conflito do tipo competência de alternativas para a decisão (Rangell, 1963); ou analogamente, Conflito Convergente vs. Conflito Divergente (Kris, A., 1984, 1985): o primeiro se refere aos conflitos entre forças intrapsíquicas que podem ser reunidas por um compromisso (formação), o último, as vezes chamado de conflitos ‘ou isso ou aquilo’, se refere a conflitos onde tais negociações são improváveis e escolher um lado é imperativo, com o subsequente luto ou renúncia de um caminho alternativo. Em todo mundo, inúmeras orientações psicanalíticas, com suas divergências e coincidências, conferem diferentes graus de importância para o conflito. Numa ponta desse espectro estão os Freudianos e Kleinianos contemporâneos, que seguem situando o conflito como um conceito central em suas formulações a respeito do desenvolvimento e funcionamento psíquico. Na outra ponta do espectro, se encontram as perspectivas da Psicologia do Self , de Kohut, uma teoria do desenvolvimento baseada na construção da estrutura psíquica e em seus déficits, apresentando um paradigma completamente diferente, uma vez que faz uma breve menção ao conflito entre pais e criança, sobre as diferentes necessidades do self e do objeto, mas deixa a noção de conflito em um segundo plano. Como pensamos o conflito é um dos fatores que definem tanto o desenvolvimento teórico de Freud, como das teorias psicanalíticas depois de Freud.

II. ETAPAS DO DESENVOLVIMENTO TEÓRICO: FREUD

Seguindo as variadas formas pelas quais Freud pensou o conflito, vemos como elas definem diferentes períodos dentro do desenvolvimento da sua teoria. O sintoma é o único caminho pelo qual três psicopatologias distintas tentam organizar seus conflitos. As histéricas convertem a luta entre sexualidade e sociedade em sintomas físicos, o que desencadeia uma luta entre a mente e o corpo. Indivíduos obsessivos deslocam a luta entre uma ideia e seu afeto para uma obsessão aparentemente inconsciente. Pacientes paranoides projetam suas experiências incompatíveis no mundo externo, criando um conflito entre os mundos interno e externo. Essas formas, únicas e inadequadas, de se resolver os conflitos psíquicos, se tornaram, gradualmente, etapas estruturadas do desenvolvimento teórico.

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II. A. O trauma e o período catártico pré-analítico (1893-1899) Durante esse período, Freud fala dos conflitos entre afetos associados a eventos traumáticos e as proibições morais da sociedade, designando conflito interpessoal, interno- externo, onde está implícita a noção de forças internas opostas (Freud, 1893-1895). Em 1899, comparando sonhos e sintomas histéricos, ele relembra sua declaração sobre conflito, de 1894: “Não só os sonhos são realizações de desejos: os ataques histéricos também ... constatei-o há muito tempo... Realidade-realização de desejos. É desse par de opostos que brota nossa vida mental” (Freud, 1899, p. 329). Em seus primeiros trabalhos sobre a histeria, ele descobriu que os desejos sexuais de suas pacientes histéricas entravam em conflito com as normas sociais, e que o sintoma era a resolução patológica desse conflito. Sintomas são gerados como formas inadequadas de resolver conflitos: “... pacientes... gozaram de boa saúde mental até o momento em que houve uma incompatibilidade em sua vida representativa ... até que seu eu se confrontou com uma experiência, uma representação ou um sentimento que suscitaram um afeto tão aflitivo que o sujeito decidiu esquecê-lo, pois não confiava em sua capacidade de resolver a contradição entre a representação incompatível e seu eu por meio da atividade de pensamento.” (1894a, p. 55, grifos do autor). Freud e Breuer (Freud e Breuer, 1895), inspirados pelas experiências de Josef Breuer com Anna O. e pelas demonstrações de Charcot das paralisias histéricas pós-traumáticas, bem como da produção experimental de paralisias histéricas e a sua reversão pela sugestão hipnótica, supuseram que na histeria de conversão surgiam circunstâncias mentais específicas, onde afetos violentos e traumáticos, incapazes de serem abreagidos, eram convertidos em sintomas físicos. Esses sintomas encontravam uma expressão física, apesar de não serem físicos em sua origem, servindo apenas para expressarem – simbolicamente – o evento que desencadeou o desenvolvimento da histeria. O caminho para lembrar o evento inicial havia sido eliminado, dissociado da consciência desperta. Freud escreveu: “Nas neuroses traumáticas, a causa atuante da doença não é o dano físico insignificante, mas o afeto do susto – o trauma psíquico. De maneira análoga, nossas pesquisas revelam para muitos, se não para a maioria dos sintomas histéricos, causas desencadeadoras que só podem ser descritas como traumas psíquicos. Qualquer experiência que possa evocar afetos aflitivos – tais como os de susto, angústia, vergonha ou dor física – pode atuar como um trauma dessa natureza” (Freud e Breuer, 1895, p. 41) A supressão de ideias e impulsos desejosos conflitantes com outros valores podem resultar em sintomas. Em 1984, Freud formulou um modelo inicial de conflito para explicar a formação de sintomas de conversão na histeria, nas neuroses obsessivas e nas fobias, e o chamou de neuropsicoses de defesa (Freud, 1894a, 1984b). Em contraste com a formação do conflito nas neuropsicoses de defesa, Freud entendeu os sintomas das neuroses atuais, ou seja, neuroses de angústia e neurastenia (Freud, 1894c; Freud, 1898), não como a expressão de um processo mental que funciona normalmente, mas como o resultado direto da transformação da libido tóxica, por conta da descarga inadequada da energia sexual. Também, ficou claro para ele que as ideias incompatíveis de suas pacientes mulheres “assoma principalmente no campo da experiência e das sensações sexuais” (Freud, 1894a, p. 55). Ele entendeu que essas ideias estavam conectadas com experiências da primeira infância e concluiu que suas pacientes foram

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seduzidas sexualmente por um adulto (Freud, 1896). Portanto, sintomas histéricos são descendentes diretos das memórias inconscientes dessas experiências, que – retroativamente – reaparecem e se tornam totalmente efetivas quando desencadeadas por eventos atuais. Posteriormente, ele apontou que a natureza patogênica desses acontecimentos da infância só existia enquanto eles permaneciam inconscientes (ibid). No entanto, em sua famosa carta, de 21 de setembro de 1897, para Wilhelm Fliess ele escreveu: “Não acredito mais na minha neurótica [teoria das neuroses]” (Freud, 1897b, p. 309). Sua “descoberta comprovada de que, no inconsciente, não há indicações da realidade, de modo que não se consegue distinguir entre a verdade e a ficção que é catexizada com o afeto” o levou a duvidar de sua teoria da sedução (ibid, p. 310). A partir da análise dos seus próprios sonhos, ele formulou, em 15 de outubro de 1897, uma ideia fundamental: “Um único pensamento de valor genérico revelou-se a mim. Verifiquei, também no meu caso, a paixão pela mãe e o ciúme do pai, e agora considero isso como um evento universal do início da infância, mesmo que não tão precoce como nas crianças que se tornaram histéricas. […] Cada pessoa da platéia foi, um dia, em germe ou na fantasia, exatamente um Édipo como esse, e cada qual recua, horrorizada, diante da realização de sonho aqui transposta para a realidade, com toda a carga de recalcamento que separa seu estado infantil do seu estado atual” (ibid, p. 316). Porém, logo depois ele voltou a apresentar casos comoventes de violência sexual, e em outra carta para Fliess anunciou (citando Mignon, de Goethe) “um novo lema: 'O que fizeram com você pobre criança?’'” (Freud, 1897a, p. 290). Freud nunca abandonou por completo o trauma como etiológico, embora tenha recuado e avançado, apesar de todas as dúvidas relacionadas às consequências psíquicas de se recordar a sedução traumática, a partir de 1897 ele seguiu com a ideia de que “os sintomas neuróticos não estavam diretamente relacionados com fatos reais, mas com fantasias impregnadas de desejos, e que, no tocante à neurose, a realidade psíquica era de maior importância que a realidade material” (Freud, 1925, p. 40). Para ele, o conceito de trauma agora se opunha a ideia de fantasias infantis, de desejo, impulsionadas por pulsões com raízes no mundo “interno”, estabelecidas de maneira conflitante entre desejo incondicional e proibição. Aqui, o sujeito racional do iluminismo encontra um ego guiado pelos desejos inconscientes, e que responde a um meio do qual se é extremamente dependente no começo da vida. A interface dessa dinâmica crucial é o conflito Edípico, causado por impulsos de amor e ódio, dirigidos aos objetos primários. Em 1925 ele lembrou, “Eu tinha de fato tropeçado pela primeira vez no complexo de Édipo , que depois iria assumir importância tão esmagadora, mas que eu ainda não reconhecia sob seu disfarce de fantasia” (Freud, 1925, p. 40 grifos do autor). A evolução do conflito da crise edípica é constitutivo das dinâmicas da vida psíquica e das suas manifestações. Sobre o tema do trauma frente ao conflito , Freud assumiu diferentes posicionamentos. Por exemplo, primeiramente, em suas conferências, ele apontou que “entre a intensidade e a importância patogênica das experiências infantis e das experiências posteriores, existe uma relação complementar semelhante à série de que já tratamos. Existem casos em que todo o peso da causação recai nas experiências sexuais da infância, casos em que essas impressões exercem um efeito definidamente traumático e não exigem nenhum outro apoio, nessa ação patogênica, além do que lhes pode proporcionar uma constituição sexual média e a circunstância de seu

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